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Precisamos repensar os cursos de arquitetura

4 de outubro de 2022

Desde que os primeiros cursos de arquitetura foram criados no final do século XIX, poucas mudanças foram feitas em suas matrizes curriculares. A maioria dos cursos do mundo todo é focado em uma universidade neoliberal,  cada vez mais projetada e definida pela produção de sucesso implacável e pelos moldes da indústria da construção.

Pouco se discute sobre o erro e a falha e a produção projetual é ainda extremamente voltada para formar Star Architects (Arquitetos Estrela) – termo usado para descrever arquitetos cuja celebridade e aclamação da crítica os transformaram em ídolos do mundo da arquitetura, criadores de grandes projetos e masterplans.

Os sistemas de sucesso forçado são profundos. Eles são garantidos e policiados por uma série de ferramentas gerenciais que podemos simplesmente entender como instrumentos de medida, garantindo que todos os alunos sejam bem-sucedidos, todas as pesquisas os projetos sejam bem-sucedidos e todas as iniciativas ligadas à indústria sejam bem-sucedidas.

Todavia será que temos espaços para tantos StarArchitects e para tanto sucesso acima de tudo? Num mundo com realidades tão distintas, é certo formar tantos arquitetos celebridades? Não deveríamos criar cada vez mais pequenos arquitetos para atuar com pequenos projetos onde os Stars jamais vão chegar?

Ainda mais, os cursos se perderam no ensino de soluções industriais para acompanhar técnicas e produtos que substituíram técnicas ancestrais de criação. Por exemplo, o quase apagamento do ensino de técnicas de resfriamento e ventilação naturais em detrimento da construção de lajes e torres de arrefecimento para ar-condicionados, acompanhando uma indústria extremamente nociva para o planeta.

Além disso, como as escolas de arquitetura estão tentando reimaginar seus currículos e estruturas de governança, em resposta à nossa inquestionável necessidade de descarbonizar e descolonizar?

Matriz Atual

A grande maioria das escolas do mundo divide sua matriz curricular nos seguintes eixos:

  • Paisagismo
  • Interiores
  • Urbanismo
  • Projeto
  • História e Teoria

Contudo nos últimos 15 anos essa divisão se tornou obsoleta e frágil. Revolução digital, indústria 4.0, robotização, automatização dos trabalhos, metaverso…Como tudo isso se encaixa dentro dessa matriz? Como demandas de pequenos grupos e coletivos de realidades distintas se encaixam nessa divisão?

Por que as universidades não estão falando sobre culturais ancestrais? Sobre Design Justice? Sobre Biomateriais? Sobre agricultura urbana? É comum vermos esses temas tratados em congressos, palestras, eventos e seminários como conteúdos eletivos da profissão. Mas eles não fazem parte efetivamente dos currículos. Não vemos arquitetos formados prontos para trabalharem com biofilia, por exemplo.

Quem quiser abraçar esses temas vai precisar procurar sozinho como abrir o caminho para começar a atuar nessa área. Claro, estamos vivendo um mundo de mudanças exponenciais e faz sentido os estudantes se formarem e mudarem a forma como se enxergam como arquitetos assim que se saem da faculdade.

Mas a orientação não pode mais ser voltada para uma divisão tão restrita quanto os antigos curriculos da era moderna.

E como poderia ser uma divisão mais assertiva e de acordo com as demandas do presente e do futuro?

Nova matriz

Embora a história e a teoria da arquitetura possam seguir sendo ensinadas da mesma forma no futuro—pelo menos em seu conteúdo—, a prática de projeto, esta sim, deverá assumir uma forma completamente nova.

Alguns temas que poderiam ser abordados nesse novo currículo projetual:

  • Decolonialiedade e Novas Estéticas
  • Biomateriais, Técnicas Sustentáveis e Meio Ambiente
  • NFT, Metaverso e Tecnologia
  • Cidades, Agricultura e Água
  • Primeira infância, PCDs e Terceira Idade
  • Saúde, Bem-estar e Conforto
  • Empreendedorismo, Comunicação e UrbanTechs

Esses temas são a raiz principal do Nichos do Futuro,  o guia do Tabulla com as 20 áreas que irão transformar a Arquitetura, o Design e a Engenharia do Futuro

Um sistema educacional que insiste no sucesso e na formação de grandes arquitetos estrelas falha em todos os envolvidos: os alunos, professores e comunidades que atendem. Precisamos de instrumentos de medida que priorizem o imprevisível, o irrepetível, o novo e o arriscado.

Também precisamos reconhecer as práticas injustas que formaram nosso status quo como arquitetos e que tem definido as matrizes curriculares da maioria dos cursos mundo afora, ainda apegados ao ensino de narrativas poluentes, misóginas, racistas e industriais.

Apenas assim conseguiremos elevar o nível da discussão da profissão e não se perder em estruturas e diálogos que não conseguirão sustentar as mudanças exponenciais do futuro do planeta.