Estamos vivendo a morte do detalhe? Será que num mundo onde a pressa e a urgência são tão grandes, processos minuciosos e detalhistas estão começando a morrer?
Michelangelo levou quase 10 anos para pintar a Capela Sistina. Será que se fosse hoje o contratante esperaria tanto tempo? Quando não queremos investir em tempo, dinheiro e detalhe estamos perdendo nossa identidade criadora e criativa?

Capela Sistina. Créditos: Pinterest
Mais caro?
No ensaio intitulado “The Beauty of Concrete” e escrito por Samuel Hughes para a revista online Works in Progress, o autor escreve como após a era Art Déco, muitos edifícios ocidentais tornaram-se hiperutilitários ou terrivelmente feios por conta da diminuição dos detalhes e ornamentos.
Hughes afirma que a ideia de que houve uma mudança na ideologia e na visão do mundo, começando com a era modernista no início do século XX, alterou o que as elites queriam encomendar e o que os arquitetos queriam projetar, levando a um mundo com menos arabescos e elementos decorativos.
O autor também escreve que a ideia de que o ornamento declinou devido ao aumento do custo da mão de obra, tempo e material não condiz com as tecnologias que o mundo moderno oferece para colocar elementos decorativos num projeto. Ele argumenta que a tecnologia e a produção em massa não tornaram a ornamentação mais cara; ficou muito, muito mais barato.
A história “sofisticada” aplicava-se provavelmente muito mais à era pré-moderna do que à moderna: o custo da mão-de-obra qualificada e a ausência de economias de escala colocaram um limite ao que os construtores de catedrais e parlamentos poderiam alcançar. Mas a fabricação de ornamentos foi revolucionada nos séculos XIX e XX, tanto em madeira como em pedra e metal; e tornou-se muito mais barato criar o trabalho que tornou possíveis os grandes monumentos da cidade do século XIX.
Na verdade, a ornamentação provavelmente se tornou mais comum, e não menos, ao longo das primeiras décadas de produção em massa e industrialização.
A arquitetura vernacular dos século XVII e XVIII tende a ser simples, com ornamentos complexos restritos às casas dos ricos e aos edifícios públicos. No século XIX em boa parte das construções do mundo, a ornamentação prolifera: até os cortiços têm fachadas de estuque ricamente decoradas, mesmo em países mais pobres como as construções líricas do interior do Nordeste no início do século XX.

Bezerras, Pernambuco, 1982. Foto da série Pinturas e platibandas, de Anna Mariani. Acervo IMS
Na verdade, o ornamento das classes média e trabalhadora era de estuque, terracota ou madeira, não de pedra, e era fundido ou fresado em padrões originais, não sob medida. Podemos vê-los como testemunhas do poder democratizador da tecnologia, que trouxe ao alcance das pessoas formas de beleza que anteriormente pertenciam apenas àqueles que as governavam.
Só depois disso, através da desilusão cultural que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, é que a ornamentação entrou num vazio, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Entramos numa era de tristeza e encolhimento nas relações que se expandiu para as construções.
Por que o detalhe importa?
Pensemos nisso como identidade. O que dá a cabine telefônica da esquerda seu caráter distintivo? Os pormenores: a moldura, a cor, a ornamentação do tampo. A cabine da direita não tem nenhum detalhe real e não passa nenhuma mensagem. E isso não necessariamente se trata de beleza, mas de qualidade.

Cabines telefônicas. Crédito: @culturaltutor no Twitter
Então, quando o minimalismo se tornou o padrão social para tudo, desde bancos e postes de amarração até arranha-céus e cozinha; temos uma redução da estética cultural. Alguém pode não gostar de um detalhe então não pode haver detalhes. A questão é que o processo de tentar agradar a todos acaba produzindo um design brando que não entusiasma e não agrega valor.
Não é um ataque ao Minimalismo, que foi um movimento consciente no final dos anos 1960, caracterizado por uma abordagem literal e objetiva à extrema simplicidade. É um ataque ao “pequeno Minimalismo”, que parecer ter se tornado o padrão social para todas as escolhas de design, sejam elas arquitetônicas, corporativas ou qualquer outra.
Neutralidade absoluta sem detalhes e sem identidade. O que isso diz sobre nós mesmos?





