Design Inovação

O que é Positive Design?

20 de julho de 2026

Quando pensamos em design, é comum imaginarmos produtos bonitos, funcionais ou inovadores. Mas será que o design pode fazer mais do que resolver problemas? Será que ele pode contribuir para o nosso bem-estar e até tornar a vida mais significativa?

Essas perguntas estão no centro do conceito de Positive Design, apresentado pelos pesquisadores Pieter Desmet e Anna Pohlmeyer da Universidade de Delft. Inspirada pela Psicologia Positiva, essa abordagem propõe que o design não deve se limitar à estética ou à funcionalidade, mas também criar experiências que favoreçam uma vida mais plena.

Segundo os autores, o papel do designer não é fabricar felicidade, mas criar condições para que ela aconteça. Afinal, o bem-estar depende de fatores individuais, das experiências de cada pessoa e da forma como ela se relaciona com os objetos e ambientes ao seu redor.

Principais Pilares

O Positive Design é sustentado por três pilares principais.

O primeiro é o prazer. Trata-se da capacidade de um produto ou experiência despertar emoções positivas por meio da beleza, do conforto, da surpresa ou da diversão. Um objeto agradável ao toque, uma embalagem cuidadosamente ilustrada ou um espaço acolhedor podem transformar pequenas ações do cotidiano em momentos de satisfação.

Um exemplo disso é o mobiliário urbano instalado em diversas cidades escandinavas, projetado para tornar parques e espaços públicos mais convidativos. Bancos ergonômicos, iluminação acolhedora e áreas de convivência estimulam as pessoas a permanecer nesses locais, favorecendo momentos de descanso, encontros e lazer. Nesse caso, o design cria condições para experiências positivas no cotidiano.

O segundo pilar é o significado pessoal. Mais do que ser bonito, um objeto pode representar memórias, valores ou conquistas importantes. Pense em um caderno de viagens repleto de desenhos, uma peça artesanal herdada da família ou uma ilustração que desperta lembranças da infância. O valor desses objetos vai muito além da sua função prática: eles ajudam a construir nossa identidade e nossa relação com o mundo.

O terceiro pilar é a virtude. Nesse caso, o design incentiva atitudes positivas, como colaboração, empatia, sustentabilidade ou hábitos saudáveis. Produtos que facilitam o compartilhamento, reduzem desperdícios ou estimulam o aprendizado são exemplos de como o design pode influenciar comportamentos que beneficiam tanto o indivíduo quanto a sociedade.

Exemplos nos espaços urbanos

Um exemplo inspirador é o projeto Little Free Library, presente em milhares de cidades ao redor do mundo. O projeto consiste em pequenas bibliotecas instaladas em espaços públicos permitem que qualquer pessoa pegue um livro e deixe outro em troca. O projeto incentiva a leitura, fortalece os vínculos entre vizinhos e promove uma cultura de confiança e compartilhamento por meio de uma solução simples de design.

Exemplo de Biblioteca pública livre. Fonte: littlefreelibrary.org

Exemplo de Biblioteca pública livre. Fonte: littlefreelibrary.org

O conceito, que se tornou um movimento oficial e uma organização sem fins lucrativos, funciona da seguinte forma: 
  • Estrutura: São pequenas caixas à prova d’água (geralmente feitas de madeira e parecidas com casinhas de passarinho ou caixas de correio), instaladas em ruas, praças e parques.
  • Acesso Livre: Não há necessidade de cadastros, carteirinhas ou prazos de devolução. Ficam disponíveis 24 horas por dia.
  • Foco Comunitário: O objetivo é democratizar o acesso à literatura, promover a leitura e incentivar a interação entre os vizinhos. 
Atualmente, existem mais de 200.000 unidades registradas em mais de 120 países.

Outro exemplo marcante é o Superkilen, parque urbano localizado em Copenhague, na Dinamarca e projetado pelos escritórios BIG (Bjarke Ingels Group), Topotek1 e pelo coletivo artístico Superflex. Implantado em um bairro marcado pela diversidade cultural, o projeto incorporou mais de uma centena de elementos urbanos — como bancos, luminárias, brinquedos e esculturas — inspirados em diferentes países de origem dos moradores. Em vez de criar um espaço padronizado, o parque celebra a identidade multicultural da comunidade e convida ao encontro, ao lazer e à convivência. O resultado é um ambiente que vai além da função estética: promove inclusão, fortalece o sentimento de pertencimento e demonstra como a arquitetura pode contribuir para o bem-estar coletivo ao reconhecer e valorizar as histórias das pessoas que utilizam aquele espaço.

The black square. Superkilen, 2012. Photo: Iwan Baan.

The black square. Superkilen, 2012. Photo: Iwan Baan. Fonte: Superflex.net

Esse caso é particularmente interessante porque reúne os três pilares do Positive Design:

  • Prazer: o parque possui cores vibrantes, mobiliário inusitado e espaços lúdicos que tornam a experiência agradável e estimulante.
  • Significado pessoal: os objetos representam diferentes culturas, permitindo que muitos moradores se reconheçam naquele espaço.
  • Virtude: o projeto incentiva convivência, respeito à diversidade, inclusão social e apropriação do espaço público.

Vantagens do Positive  Design

O aspecto mais interessante dessa abordagem é reconhecer que não existe uma receita universal para o bem-estar. O que proporciona felicidade para uma pessoa pode não ter o mesmo efeito para outra. Por isso, compreender o contexto, os valores e as necessidades do público é uma das tarefas mais importantes do processo de criação.

Essa visão amplia o papel do design na sociedade. Em vez de apenas responder às demandas do mercado, ele passa a ser uma ferramenta capaz de fortalecer vínculos emocionais, estimular a criatividade, despertar memórias afetivas e promover experiências significativas.

Para quem trabalha com ilustração, design ou artes visuais, essa perspectiva traz uma reflexão importante: cada projeto pode ser uma oportunidade de criar não apenas algo visualmente atraente, mas também uma experiência que desperte emoções, conte histórias e estabeleça conexões genuínas com as pessoas.