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Computadores fazem arte?

26 de agosto de 2025

“Arte é aquilo que é feito movido pelas formas internas do indivíduo. Arte é tudo aquilo que é feito por tesão, por vontade de potência” Nietzsche

 

Em 1950, o cientista da computação Alan Turing se perguntou se uma máquina poderia exibir um comportamento inteligente indistinguível do de um humano.

Ele propôs seu famoso jogo da imitação. Nele, um humano julga se está conversando com uma pessoa ou com um computador. Se o humano não consegue diferenciar, o computador passa no teste.

Por décadas, isso permaneceu como um parâmetro teórico. Mas, com a recente explosão de chatbots poderosos, o Teste de Turing original para conversação foi  aprovado. Esse avanço levanta uma nova questão: se a IA consegue dominar a conversação, será que consegue dominar a arte?

As evidências sugerem que ela já passou no que poderia ser chamado de “Teste de Turing Estético”.

A IA pode gerar músicas, imagens e filmes de forma tão convincente que as pessoas têm dificuldade em distingui-los das criações humanas.

Na música, plataformas como Suno e Udio podem produzir músicas originais, completas com vocais e letras, em qualquer gênero imaginável em segundos. Algumas são tão boas que viralizaram. Enquanto isso, imagens fotorrealistas são igualmente enganosas. Em 2023, milhões de pessoas acreditavam que a foto fabricada do Papa Francisco com uma jaqueta acolchoada era real, um exemplo impressionante do poder da IA ​​para criar ficção convincente.

Em 2022, uma obra de arte criada a partir de um gerador de textos com Inteligência Artificial (IA) levou o primeiro lugar em uma competição de artes da Colorado State Fair, realizada nos Estados Unidos. Feita pelo designer de jogos Jason Allen, o material venceu a categoria Digital Arts/Digitally-Manipulated Photography”.

 

Estamos sendo enganados?

Arte foi criada usando Midjourney, uma IA de criação de imagens presente no DiscordImagem: Jason Allen/Discord

Arte foi criada usando Midjourney, uma IA de criação de imagens presente no Discord Imagem: Jason Allen/Discord

Primeiro, a IA se tornou uma especialista em falsificar padrões humanos. Esses modelos são treinados em gigantescas bibliotecas de arte feita pelo homem. Eles analisaram mais pinturas, músicas e fotografias do que qualquer pessoa jamais poderia. Esses modelos podem não ter alma, mas aprenderam a receita matemática para o que achamos bonito ou cativante.

Segundo, a IA construiu uma ponte sobre o vale da estranheza. Este é o termo para a sensação assustadora que sentimos quando algo parece quase humano, mas não exatamente — como um robô humanoide ou uma boneca com olhos vazios.

Finalmente, a IA não apenas copia a realidade; ela cria uma versão aperfeiçoada dela. O filósofo francês Jean Baudrillard chamou isso de simulacro — uma cópia sem original.

O futuro da arte em um mundo sintético

Quando a arte é tão fácil de gerar — e sua origem tão difícil de verificar — algo precioso corre o risco de se perder.

O pensador alemão Walter Benjamin escreveu certa vez sobre a “aura” de uma obra de arte original — o senso de história e o toque humano que a tornam especial. Uma pintura tem aura porque você consegue ver as pinceladas; uma fotografia antiga tem aura porque capturou um momento real no tempo.

A arte gerada por IA não tem essa aura. Ela é infinitamente reproduzível, não tem história e carece de uma narrativa humana. É por isso que, mesmo quando tecnicamente perfeita, pode parecer vazia.

Se uma máquina cria uma música que leva uma pessoa às lágrimas, importa que a máquina não tenha sentido nada? Onde reside verdadeiramente o significado da arte — na mente do criador ou no coração do observador?

Construímos um espelho que reflete nossa própria criatividade e agora precisamos decidir: preferimos a perfeição sem humanidade ou a imperfeição com significado? Escolhemos o reflexo impecável e descartável ou o espelho bagunçado e divertido da mente humana?

 

“Não é por que você possui um novo idioma, que você vai ter algo a dizer” Ernst Billgren