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Romero Britto: luxo ou lixo, arte ou negócio?

27 de abril de 2015

Romero Britto é um artista plástico e gráfico natural de  Recife-Pernambuco e que hoje faz um tremendo sucesso no mundo com suas gravuras super coloridas que são replicadas de cangas a latinhas de refrigerante.

Romero é tão conhecido  hoje  que tem até um museu-galeria próprio em Miami onde mora. É aclamado por celebridades como Madonna e Obama, que tem seus retratos pintados por ele pendurados em suas casas; além de ter criados gravuras para campanhas de empresas como Pepsi, Absolut e Disney.

Arte ou negócio?

romero britto

Mas Romero apesar de amado por muitos é igualmente odiado por tantos. E por que?

Muitos críticos de arte questionam que o que ele faz não é arte e sim, um “carimbo”, uma identidade de fácil entendimento para quem tem pouco conhecimento artístico com formas simples e fortes constrastes de cores.

Sem entrar muito profundamente no conceito de arte, limitarei a dizer um conceito que aprendi com o curador Raul Córdula: Arte é toda manifestação estética que transmite simbolismos, mensagens e atitudes. De fato, não consigo enxergar isso na obra dele.

Se formos falar nas sensações provocadas pelas obras, muitos dos seus fãs afirmam que suas gravuras transmitem alegria e bem-estar.

E Romero, muito espertamente, replica e replica  várias vezes essas gravuras (ou essas sensações), com pequenas variações, para que a maior quantidade possível de pessoas no mundo tenha acesso e ele ganhe cada vez mais audiência.

Romero seria então um empresário e publicitário super esperto!

Andy x Romero

andy warhol romero britto

Mas devemos lembrar que Andy Wahrol fez exatamente isso na década de 60 com o movimento popart e por que então Andy é considerado um exímio artista a ponto de estar na galeria permanente do MOMA em NY?

Talvez porque Andy foi o primeiro a desmoralizar o mercado da arte, transformando-a em publicidade, subvertendo a técnica e a vocação para o desenho. Para ele a arte não importava, as pessoas queriam era a assinatura para exibir para amigos em suas casas, por isso ele criou um monte de gravuras/grafismos com desenhos alegres de celebridades.

Andy antecipou o que vivemos hoje com as redes sociais em 50 anos (“todos terão seus 15 minutos de fama”). As pessoas não querem saber do profundo conteúdo e da história das coisas e sim das marcas assinadas para exibir em suas contas de instagram e facebook. O que vale é a assinatura, a identidade!

Andy foi pioneiro nisso e teve sua estratégia inteligentíssima copiada por vários, incluindo Walter Keane, marido da pintora Margot Keane (assistam o filme “Big Eyes” de Tim Burton para conhecer a história) que vendia cópias impressas de gravuras  fofinhas de crianças com olhos grandes da sua esposa.

Walter percebeu que a obra não tinha profundidade intelectual para estar num museu ou galeria, mas sim uma grande pregnância emocional que deixava a grande massa encantada ao enxergar os “grandes olhos”. As carinhas fofinhas viraram uma mania nacional nos EUA dos anos 70.

margot keane big eyes

Então Romero seria simplesmente um Andy do século XXI preenchendo uma lacuna para uma sociedade pouco instruída intelectualmente no campo visual que não sabe o que comprar para colocar nas paredes das suas casas e nem tem dinheiro para investir em artistas consagrados (e muito menos lembra ou sabe quem foi Andy Wahrol).

Romero apenas copia o que Andy fez na década de 60 para a geração dos dias de hoje. E com certeza  ele não está se importando se alguém pegou uma imagem sua na internet e mandou imprimir, ou ainda se um artesão da feirinha bordou uma canga ou uma sapatilha com seus desenhos.

Isso só traz mais conhecimento e publicidade grátis pra ele que vai ficando com sua assinatura cada vez mais conhecida em todas as classes sociais.

Imagem desgastada

objetos romero britto

O preconceito com Romero também se faz pela expansão gigante que ele teve. Segundo a Teoria da Distinção do filósofo francês Pierre Bordieu, os mais desenvolvidos culturalmente e intelectualmente tendem a sentir repulsa quando os mais ignorantes começam a adquirir e entender coisas que eles tinham anteriormente.

Por essas e outras, Romero tem sido tão criticado  por todos do meio artístico que sim, não aguentam ver aqueles bichinhos coloridos estampados nas havaianas do barraqueiro da praia.

Compraria eu um Romero Britto?

Enfim, depois de todo esse papo, vem o dilema! Romero então é lixo e vamos esquecê-lo?

Acho que Romero tem seus méritos sim! Pode não ser arte (na etimologia da palavra) e já está com uma imagem super desgastada por se fazer presente em tantos lugares e objetos, mas creio que devemos respeitá-lo. É um brasileiro que conseguiu se inserir no mercado gráfico mundial e isso só dá abertura para que mais pessoas se interessem em olhar para o Brasil.

Também devemos lembrar que Romero “chegou lá” honestamente, veio de família nordestina pobre e conseguiu um lugar ao sol por mérito ou inteligência própria. Aparentemente não ouvi falar de padrinhos ou esquemas estapafúrdios no seu caminho.

E se eu colocaria um Romero na minha casa? Provavelmente não! Particularmente acho que faço parte da teoria da distinção de Bordieu e criei uma repulsa às coisas dele sim.

Porém me surpreendi um dia desses quando minha prima (da qual fiz o projeto do seu apartamento) chegou com uma escultura de gatinho de Romero que comprou no museu dele em Miami e me ligou dizendo que ia colocar o felino na sala. No início surtei (“Vai acabar com toda minha concepção de projeto!”), mas quando vi o bichinho lá no contexto do apartamento todo achei a coisa mais linda do mundo. Não sei se foi meu amor por gatos que influenciou ou se fui comprada pela publicidade de Romero…. Só sei que gostei.