Arquitetura

Como a arquitetura se tornou uma profissão tão mal remunerada

5 de junho de 2024

Uma pauta comum nas conversas entre arquitetos é sempre a mesma: remuneração. De vagas de salário que não pagam a base do CAU ou de clientes que não aceita um orçamento justo de projeto. Como a arquitetura se tornou uma profissão tão mal remunerada? Sempre foi assim?

Não há dúvida de que os rendimentos da arquitetura estão diminuindo em relação a outros empregos. Os profissionais tradicionalmente com salários médios, como enfermeiros, professores ou policiais, são agora mais bem remunerados do que os arquitetos, especialmente quando se consideram os benefícios do setor público.

Num passado distante, a arquitetura era classificada em pé de igualdade em termos de rendimento com as profissões “séniores” de finanças, contabilidade, direito e medicina. Somos agora vistos pelo mundo exterior como uma profissão mal remunerada – especialmente quando a nossa formação e responsabilidades são consideradas.

À medida que os arquitetos se tornam menos valorizados na sociedade, é menos provável que  jovens  oriundos de meios desfavorecidos vejam a arquitetura como uma carreira atraente e financeiramente viável.

 

Razões dos salários baixos

  1. Muitos formandos?

A oferta de escritórios de arquitetura superou a procura pelos seus serviços, levando à queda dos níveis de honorários. Estaríamos formando profissionais demais?

A arquitetura é agora apenas uma profissão orientada para o mercado. E este mercado está cada vez mais concorrido. Isto é, em parte, o resultado de um maior número de estudantes nas escolas de arquitetura do que no passado.

Segundo o último censo do CAU, 79% dos arquitetos acreditam que a baixa valorização da profissão é um obstáculo para o seu exercício. Praticamente dobrou, em comparação aos dados do I Censo (2012), a quantidade de profissionais insatisfeitos com sua remuneração e uma parcela alta (35%) não tem acesso ao mercado de trabalho.

 

2. Autoconstrução

Um fato grave é  de que outras pessoas podem projetar edifícios quase tão facilmente quanto arquitetos registrados através de autoconstrução. Segundo o professor Carlo Ratti do MIT, apenas 1 em cada 50 edificações construídas no mundo são projetadas por arquitetos.

Arquitetos e engenheiros são totalmente desconhecidos por essas pessoas e isso foi comprovado numa pesquisa do CAU de 2015, onde 85% das pessoas que já construíram ou reformaram no Brasil afirmaram não ter conhecimento do trabalho de arquitetos.

O problema é do governo que não fiscaliza e estimula a inserção de profissionais nas comunidades? Ou da própria classe que se limitou às práticas euro centristas de projeto formando uma bolha que projeta para as elites?

Ou deveríamos nos juntar à autoconstrução de maneira formal?

 

3. Diversificação

Nossa incapacidade de trabalhar para todos os setores da indústria da construção e ampliar o nosso olhar profissional além de apenas construir edifícios. Arquitetos deveriam estar inseridos em todas as áreas.

No início do século XX discussões sobre a formação das cidades, grandes obras de engenharia, abertura de universidade como a Bauhaus (todos impulsionados pela Revolução Industrial) trouxeram a profissão de arquiteto para outro patamar.

De lá para os dias de hoje o mundo mudou muito. A Revolução digital e a quarta Revolução Industrial têm ressignificado profissão do arquiteto, do engenheiro e do designer ( esse que surgiu há menos de 100 anos) na sociedade com novos paradigmas a serem pensados.

Será que ainda devemos ficar presos à formação clássica do arquiteto que constrói casas com tijolos, combina a cor da parede com o revestimento e dimensiona o tamanho de janelas?

Não existem outros nichos urgentes e extremamente importantes que vão além da formação acadêmica clássica e que precisam ser abraçados?

 

4. Desvalorização do Estado

Exstem poucas vagas para arquitetos em órgãos públicos comparado com profissões como engenharia, direto, contabilidade, administração e medicina.

Comparando com a área de direito, existem todo ano inúmeros concursos para juízes, promotores, procuradores, analistas e técnicos judiciários e administrativos com salários muito bons. Quando existem concurso para arquitetos, difícilmente serão disponibilizadas mais do que duas vagas.

Por que um arquiteto é menos importante para o Estado do que um advogado? A melhoria das nossas cidades também não está atrelada a todos os problemas jurídicos e administrativos que os profissionais do direito e a da administração enfrentam?

 

Soluções

Apenas os arquitetos das camadas superiores da nossa profissão são razoavelmente remunerados, isto é, desde que sejam proprietários de empresas ou diretores seniores estabelecidos. No entanto, o dinheiro no topo da profissão não é muito filtrado para baixo. Os nossos soldados de infantaria arquitetônicos, que constituem a maior parte desta profissão, continuam a receber salários baixos e, na meia-idade, atingem um teto de vidro que é cada vez mais difícil de penetrar.

Alguns de nós estamos saindo da prática convencional e usando nossas habilidades arquitetônicas de forma produtiva de outras maneiras.  Outros arquitetos agora vão regularmente para o “lado do cliente” ou tornam-se eles próprios desenvolvedores. Muitos de nós somos tutores, conselheiros e críticos. Essas funções são uma forma excelente e lógica de diversificar de forma positiva.

A profissão de arquiteto é sem dúvida criativa e flexível e pode proporcionar uma vida  de trabalho gratificante. Estes são benefícios incomuns e não devem ser subvalorizados no mercado de trabalho atual.