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Autoconstrução: proibir ou não? Bom ou ruim?

30 de novembro de 2020

Autoconstrução, ou obras e residências construídas sem ajuda de arquitetos e engenheiros não acontecem só no Brasil. Em quase todo o mundo, pessoas constroem diariamente sem ajuda de profissionais.

Recentemente no Rio de Janeiro, um edifício de 5 pavimentos construído por um grupo de milícias e vendido no mercado negro da periferia carioca, desabou matando 5 pessoas. A construção chegou a ser interditada 2 vezes, mas como controlar uma região onde a fiscalização é difícil e onerosa?

Em HongKong, a comunidade de Kowlon, derrubada pelo governo chinês em 1993, chegou a abrigar 50 mil habitantes com edifícios de 4o andares, numa organização de cidade autossustentável gerida sem os olhos do governo e formada basicamente por autoconstrução.

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Antiga Kownlon em Hong Kong
Foto: Greg Girard

Cidades como Rio de Janeiro, Egito, Bangkok, Shangai, Istambul, Nairóbi e Caracas compartilham histórias parecidas de construções irregulares que se amontoam em cidades informais.

Segundo o arquiteto e professor do MIT, Carlo Ratti , apenas 1 em cada 50 construções criadas no mundo hoje são desenhadas e geridas por arquitetos ou engenheiros.

Onde está o problema?

Uma prática comum dessas comunidades são os famosos puxadinhos. Famílias constroem laje sobre laje em casas muitos pequenas e alugam e negociam entre locais sem processos legais de uso do solo urbano.

O poder público não consegue controlar já que a maioria dessas comunidades é de difícil acesso e quase 100% autogerida. Arquitetos não fazem parte do processo, pois para essas comunidades eles praticamente inexistem.

Arquitetos e engenheiros são totalmente desconhecidos por essas pessoas e isso foi comprovado numa pesquisa do CAU de 2015, onde 85% das pessoas que já construíram ou reformaram no Brasil afirmaram não ter conhecimento do trabalho de arquitetos.

O problema é do governo que não fiscaliza e estimula a inserção de profissionais nas comunidades? Ou da própria classe que se limitou às práticas euro centristas de projeto formando uma bolha que projeta para as elites?

Talvez o problema esteja nas duas opções. E como mudar? Ou será que tem que ser mudado?

AutoConstrução como Amiga

“Se não pode vencê-los, junte-se a eles.”

Ao invés de brigar contra à autoconstrução, arquitetos e ONGS mundo afora tem revertido o processo chamando essas pessoas para construírem suas casas num processo colaborativo e comunitário ao lado de profissionais.

Na Índia, o professor Carlo Ratti do MIT, desenvolveu um projeto habitacional pré-fabricado de baixo custo, encomendado pela a empresa indiana sem fins lucrativos WeRise., com o objetivo de educar e capacitar as comunidades locais para que as pessoas possam assumir o processo de construção de suas próprias casas

O sistema construtivo desenvolvido pelo arquiteto italiano está sendo testado em uma vila nos arredores de Bangalore.

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Living Board na India
Fonte: Carlo Ratti Associatti

No Paquistão, o Orangi Pilot Project é uma ONG que ajuda comunidades a construírem suas casas com orientação através de oficinas e escritórios localizados dentro dessas mini-cidades.

A ONG trabalha não só com autoconstrução, mas com sistemas complexos como redes de água, esgoto e reciclagem de lixo.

O escritório Something&Son, baseado em Londres, criou um projeto para as comunidades inglesas onde a estrutura do edifício é desenhada por arquitetos e construída pelo Governo com materiais resistentes e duradouros.

Já os pisos internos e a configuração dos apartamentos é criado pelos próprios proprietários de acordo com suas vontades e estilos.

“O objetivo final é desenhar o sistema e não o edifício pronto”

Something&Son

Na Venezuela, o coletivo UrbanThinkTank, tem criado fablabs dentro de comunidades para que a própria população apoiada por profissionais construa suas casas através das necessidades de cada família.

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Estudos do Coletivo Urban Think Tank
Fonte: UTT

Segundo Hubert Klumpner, o codesign, ou o design colaborativo deve coexistir com as práticas informais, criando estruturas que se transformam e que não sejam definitivas, já que esses lugares estão em constante transformação.

“Nós precisamos de laboratórios de larga escala com pessoas reais fazendo parte dele”

Hubert Klumpner

No Brasil

E aqui no Brasi? Continuaremos brigando contra isso já sabendo que de pouco adianta? Por que não estamos também trabalhando práticas de cocriação junto a comunidades?

Será que deixaremos as milícias tomarem conta do processo? Quantas pessoas ainda vão morrer com desabamentos ou viver em ambientes extremamente mal projetados que aumentam o risco de doenças e bemviver?

Deveríamos esperar o poder público? Ou atuar como as ONGS e escritórios dos exemplos acima que vem fazendo a sua parte para chamar a atenção?

Qual a sua opinião?